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TORATARO TONE, EMPRESÁRIO, COMERCIANTE E AGRICULTOR



Tive a felicidade de haver usufruído  por inúmeras vezes da hospitalidade de Torataro Tone  e de sua segunda esposa dona Clara,  no belo e confortável sobrado que seu filho, o arquiteto Toshio Tone,  planejou para o pai  na Rua Paulo Sá.
Lá moravam, no final dos anos 1950,  o casal Tone, os pais de dona Clara e o filho caçula Luiz Gonzaga Tone, meu amigo de longa data e  colega de escola, hoje Professor Titular e Coordenador do Laboratório de Pediatria do Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP.



Nascido em Nara, Japão, em 1º de agosto de 1902, Torataro  veio para o Brasil em 1921.



Antes de completar trinta anos, vamos encontrá-lo trabalhando na Casa Camargo, situada na Rua Paraná, esquina com Souza Soutello, onde tornou-se o braço direito do proprietário, Benedito Martins de Camargo (foi prefeito de Ourinhos 1934-1937), que residia na Rua 9 de Julho, sendo vizinho de cerca de meu avô, José das Neves Júnior. 
A essa altura, Tone já contraíra matrimônio com Mituo  com quem teve os filhos Toshio (arquiteto), Nair (nutricionista), Paulo (dentista) e  Rui (engenheiro civil). Sua esposa faleceu muito jovem e Torataro casou-se alguns anos  depois com dona Clara, nascendo então o meu amigo Luiz Gonzaga Tone.













Torataro Tone e Clara na praça que leva o nome do filho Toshio, e onde foram plantadas cerejeiras, espécime que Toshio tanto apreciava.



Professor doutor Luiz Gonzaga Tone


Sabedor da importância da educação, assegurou a seus filhos formação superior de qualidade.

 Transcrevo a narrativa que Cláudia Camargo Toni, neta de Benedito Martins de Camargo fez  a Neusa Fleury sobre o convívio do avô com Torataro Tone:

"Pois bem, acho que os japoneses chegaram aí com a missão primordial de cuidar das lavouras de café, mas pouco a pouco foram se diversificando.
História de família: quando meu avô se candidatou, achou que não poderia cuidar direito do armazém de secos e molhados sem prejudicar a cidade e então contratou um comprador assíduo - Torataro Tone - para trabalhar com ele. Tone fazia as compras para o patrão fazendeiro e assim conheceu meu avô. Meu avô gostava dele.
Pois bem, pouco depois ofereceu sociedade ao empregado que logo tratou de encomendar uma esposa no Japão, a D. Mituo. Ela chegou ao Brasil sem saber uma só palavra de português. Minha avó foi quem ensinou a ela a língua falada e escrita, a cozinhar e a costurar. (.... )
Meu avô morreu aos 38 anos e minha avó decidiu voltar para SP depois de um ano de viuvez, quando permaneceu calada. Sim, ela não disse uma só palavra durante um ano após a morte de Benedito. Tinha então 7 filhos e também 38 anos.Sua família inteira estava na Capital e a solidão era grande, além da dificuldade de criar 7 crianças.
A fortuna do casal eram duas casas em Ourinhos e metade do armazém, que ficou aos cuidados de um dos irmãos de meu avô. O jeito para os negócios falhou e então Torataro comprou a parte de minha avó e ali foi a semente da rede de mercados. Durante anos, ele mandava presentes para ela:porcos, perus, galinhas, caixas de frutas.


O filho de Torataro , Paulo, dentista, forneceu mais detalhes sobre o contato entre seu pai e Benedito Martins de Camargo:
Certo dia, "Camargão" lhe falou:


" Tone você é um japonês diferenciado, não pode ficar perdendo tempo, “carpindo mato”, precisa vir trabalhar comigo como sócio em minha casa comercial, sob duas condições: primeiro, naturalizar-se brasileiro, tarefa essa que eu resolvo , segundo tem que casar, isto cabe a você. Aceitou a proposta e escreveu ao seu irmão mais velho do Japão e contraiu matrimonio com minha mãe por correspondência que era uma pessoa amiga da família, união esta chamada “Miai” tão comum naquela época.

Após 60 dias minha mãe aportou em Santos para a alegria do meu pai, vindo direto para Ourinhos."



Inovador, Tone introduziu nos anos 1940 o sistema de entregas de mercadorias aos seus clientes, feito inicialmente por uma carrocinha.


Diversificou suas atividades, investindo no ramo de cerâmica e na agricultura.

Cerâmica São Joaquim


Sitio Monjolinho


 No início  dos anos 1970, Tone inova mais uma vez criando o primeiro supermercado de Ourinhos, na Rua Paraná, ao lado da antiga Casa Tone. 
Diário da Sorocabana, 8-3-1970:
Supermercado Tone será brevemente inaugurado na Rua Paraná - Mais uma importante e bem montada casa comercial que estará enriquecendo o patrimônio de Ourinhos



Alguns anos depois, com o sucesso do empreendimento na Rua Paraná, Tone ousa e cria um grande supermercado na Rua Expedicionário, a poucos metros do seu sobrado residencial.





Na primeira foto vemos a família Tone por ocasião da inauguração do Supermercado Tone, na segunda, a cerimônia de inauguração com a presença do prefeito Rubens Bortolocci da Silva.

Torataro Tone ainda abriu um outro supermercado na Avenida Jacinto Sá.
Acredite se quiser. Esse grande empreendedor até hoje não tem uma rua ou praça com seu nome!

Sobre os japoneses em Ourinhos leia visite também:




Comentários

NewtonC disse…
Interessantíssimo. A vida é bela.
História viva, imbuída de sentimento.

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