FALA ROBERTO PELLEGRINO

ANTIGOS PENSAMENTOS

Há uma coisa que me intriga: o que eu pensava, nos meus primeiros tempos de Ourinhos, a respeito de, vindo de Roma, haver atravessado o oceano para ir morar numa cidadezinha quente, "avermelhada" e sem possuir absolutamente nada daquilo com que estava acostumado? Para falar a verdade verdadeira, não lembro. Sou, porém, levado a crer que não me preocupava com esse aspectos, pois estava empolgado com a grande aventura em que havia se transformado minha vida. Sim, era uma grande aventura mergulhar em um mundo tão desconhecido quanto inusitado. Era tudo tão novo para mim -- os edifícios, as ruas, a vegetação, as pessoas, a língua, os costumes, o clima -- que o deslumbramento ante aquela miríade de novidades e o esforço requerido para me inserir naquele contexto não me deixavam tempo para pensar em mais nada.



A PIZZA

No princípio dos anos 1950, eu deixava os ourinhenses atônitos e incrédulos quando declarava detestar pizza. Diga-se de passagem que naquela época não existia na urbe rubra essa iguaria partenopeia, mas sua existência, logicamente, era do conhecimento dos íncolas da Rainha da Média Sorocabana, que a haviam apreciado alhures.
Para explicar minha aversão à pizza, terei de regressar ao tempo em que eu habitava a Caput Mundi, no dizer dos antigos romanos. Perto da minha casa existia uma pizzaria que minha família costumava frequentar. Meu pai, com o espírito democrático que o caracterizava, oriundo da cultura machista siciliana do início do século XX, só pedia pizza à romana, com alice, que ele adorava. Dessarte, na minhan ingenuidade, eu pensava que pizza fosse apenas daquele jeito (odeio até hoje pizza à romana, porém gosto por demais das outras, especialmente a Margherita). E, paradoxo dos paradoxos, eu só vim a conhecer outros tipos de pizza no Brasil!

Roberto Pellegrino

PS.: Em 2001, quando fui à Itália com a Maria Inês, constatei que a tal pizzaria próxima à minha antiga casa ainda existia.





TARDE
Tarde quente e modorrenta. O silêncio quebrado apenas pelo martelar de uma araponga nas imediações. Tudo parado, nenhuma brisa mexe as folhas das árvores, nenhum pássaros canta. Nada. Ninguém. O sol domina tudo; o único sinal de vida vem dos insetos. Eu quero sumir dali, para bem longe, para a capital, que fervilha de gente, de carros, onde se ouve barulho de motores, de buzinas, de vozes.
No final da tarde quente e modorrenta, o silêncio é quebrado por um estrondo, mais outro, mais outro, cada vez mais próximos. E a tempestade cai com violência, molhando a rua, as casas, as árvores, calando a araponga, refrescando o ar.
Eu continuo querendo sumir dali.

Pelleberto Rogrino

NOTEI
Eu notei o semblante compungido dos fieis depois de tomarem a hóstia. Notei o vagaroso caminhar de funcionários, de volta a seus escritórios, após terem almoçado em restaurantes. Notei motoboys arriscarem a vida para ganhar um segundo ou menos, Notei pessoas só falarem de si mesmas, de seus problemas, sem perceber que não são ouvidas. Notei pessoas de mal com o mundo e cujos reclamos são o leitmotiv de suas vidas. Notei gente que adora dar conselhos, perdendo muitas oportunidades de ficar de boca fechada. Notei homens e mulheres adoráveis que iluminam os ambientes com sua presença. Notei mulheres com trajes e chapeus estranhos em cerimônias de casamento. Notei maridos mandarem nas esposas, e vice-versa, como se casamento fosse um exercício de dominação, e não de satisfatória convivência. Notei olhares de amor incondicional de mães e pais dirigidos aos filhos. Notei que já pensei, falei e fiz muitas tolices.

Pelleberto Rogrino

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