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JULIO ZAKI ABUCHAM E O BAR PAULISTA

Considero o artigo publicado no semanário "A Voz do Povo", de 25 de fevereiro de 1939, uma obra prima. A descrição  do que se passava no interior do Bar Paulista feita pelo autor é tal qual um instantâneo feito por um fotógrafo detalhista. 
É também uma bela homenagem à figura de Julio Zaki Abucham, o caçula dentre os homens da família. Uma ode à sua simpatia que pude conhecer  de perto.
Infelizmente  o autor utilizou um pseudônimo, e assim nunca saberemos quem era.

O Bar Paulista ficava na Praça Melo Peixoto ao lado da Igreja Matriz. Foi inaugurado no ano de 1938. João e Júlio Zaki estavam no comando, contando com o auxílio competente das irmãs Budai, Maria e Júlia. A primeira, com seu sorriso franco sempre estampado no rosto. O bar tinha charme: longas prateleiras nas paredes laterais e central; o caixa do lado esquerdo, mesas espalhadas pela área central. À direita ficava o balcão do café. Tornou-se um ponto de encontro de gerações de toda condição social, até os anos 1970. Deixou uma marca registrada na cidade e muita saudade.

CHRONICA DA SEMANA

Domingo de Fevereiro de 1939, em Ourinhos.
Terminada a missa das 10, na igreja Matriz, quedamo-nos a observar o desfile triumphal das ourinhenses jovens e lindas, que passam aos bandos,alegres e gentis, distribuindo as suas graças, aqui e acóla, á turba numerosa dos que só sahiram á rua para ve-las e admira-las.



Duas jovens, minha mãe Amélia das Neves  e Ione Pierotti, passam pelo Bar Paulista após saírem da missa das dez, na Igreja Matriz, ao lado.

E dentro em pouco a praça Mello Peixoto fica deserta e vasia de encantos, Consulta-se o relogio: 11 horas.
Consulta-se o estomago: é a hora do apperitivo.
E eis-nos convergindo, entre um grupo de alegres companheiros, ao quartel general dos cock-tails gostosos e das «geladinhas» tentadoras, ao ponto obrigatorio de reunião da roda masculina de Ourinhos, ao pôpularissimo Bar e Café Paulista.
A rumorosa sessão ahi formada já vae em franca actividade e, do cantinho em que nos acommodamos nos pômos a observar, de longe, o rumo das palestras travadas entre os que se acotovelam ao re­dor das demais mesinhas.
O Bar e Café Paulista é um recanto sempre propicio ás indiscrições do observador anonymo e arguto.
Freqüentado por elementos de todos os matizes sociaes e profissionaes, dentre gente rica e gente pobre, bancarios, médicos, advogados,  ferrovia­rios, funccionarios publicos, lavradores, homens de negocios e ex-politicos, o Bar e Café Paulista asseme lha-se a um cenaculo onde os re­presentantes das diversas camadas da sociedade local encontram ambiente sempre favorável para a exposição dos seus pontos de vista e dos seus commentarios de todo o genero.
Hoje, por exemplo, as palestras são as mais generalisadas e interessantes possíveis. Falla-se de tudo e sobre tudo.
Lá ao fundo, uma ala de conspicuos cidadãos em que reconhecem os prestigiosos exmembros de pujante partido, já hoje letra morta no paiz, commenta acaloradamente a situação geral brasileira, numa mistura de themas em que vêm á baila as finanças nacionaes, a propalada descoberta do petroleo de Lobato, a nova era administrativa de S. Paulo, etc., etc.
Acolá, é um grupo de barbeiros e alfaiates, e que discorre com enthusiasmo sobre questões de futebol e esportes em geral, recapitulando episodios dos últimos encontro entre brasileiros e argentinos e entre paulistas e cariocas Aqui é uma roda de honrados funccionarios públicos, que empunhando seus copos a transbordarem de espumante «Antarctica», perora sobre religião, sobre a alta dos generos  e até sobre o decreto presidencial prohibitivo do jogo do bicho.
E naquella mesa próxima, finalmente, acotovela-se um grupo de homens do commercio e da lavoura, e os quaes, em meio de energicas gesticulações, estabelecem seus palpites sobre o termino do conflicto hespanhol, a paralyzação dos negocios e os effeitos da chuvarada destes últimos dias sobre a lavoura do algodão e cereaes.
E as palestras se avivam, e todos se enthusiasmam e vibram, emquanto que o fleugmatico Julio, obsequioso, com aquelle seu ar complacente e o seu indefectível sorriso, attende, solicito, os seus assí­duos e alegres freguezes, servindo mais um apperitivo a este, mais uma cerveja áquelle, mais um refresco áquelleoutro.


Foto de Júlio a postos na registradora do caixa do Bar. (In Jefferson Del Rios - memórias de uma cidade paulista, 1992). Autoria desconhecida.

 Satisfeita a nossa curiosidade, de posse de matéria para a nossa chronica de hoje, e depois de ingerirmos mais uma «batida», dispomo-nos para o almoço.
E em perfeita ordem fazemos a retirada, deixando o bom do Julio ás voltas com a sua freguezia, attendendo a todos com o sorriso sempre preso aos labios, aquelle sorriso que é ao mesmo tempo um traço marcante da sua bella alma, e um segredo que elle talvez mesmo ignore, do seu exito commercial...
                                                                                                                  FRABALE 

Comentários

Gostei demais dessa imagem e texto, pois bem captaram a essência do Júlio que de fato tinha uma "bella alma"!
Com certeza, Valéria. Tal qual era.
Obrigado pelo comentário.
Ab.

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