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A CONGREGAÇÃO MARIANA DE OURINHOS E O TEATRO



A existência da Congregação Mariana remonta ao século XVI.  De inspiração jesuítica, espalhou-se rapidamente.
No Brasil, passou a existir já durante o  período colonial, tendo praticamente desaparecido com a expulsão dos jesuítas, no século XVIII.
Renasceu em Itú, em 1870, crescendo novamente.
Em 1937, foi criada,  a Confederação Nacional,  com sede no Rio de Janeiro. A partir dessa data, o Brasil tornou-se o país com o maior numero de Congregações.
Em 1991, em Aparecida (SP), foi aprovado um novo Estatuto da Confederação Nacional, que fez das Congregações Marianas, "uma associação religiosa de leigos, autônoma, com a marca característica da devoção".
No portal jesuíta ela é definida como "associação pública, formada por leigos católicos, que procuram seguir melhor o Cristianismo através de uma vida consagrada à Mãe de Deus, a Virgem Maria".
No meus anos de criança e adolescência, os congregados marianos eram numerosos na Paróquia do Senhor Bom Jesus de Ourinhos. Eles eram reconhecidos por portarem uma fita na cor azul (a cor litúrgica da Virgem Maria, tendo na extremidade uma medalha prateada contendo as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria, sua mãe santíssima.
Nos anos 1950 e 1960, seu líder por muitos anos foi Humberto Rosa.
Nesses anos, até o início de 1960, os congregados marianos mantiveram, ao lado da Igreja Matriz (a nova), um barracão de madeira onde realizavam as  suas reuniões. Nos finais de de semana, o barracão era transformado em um cinema, que muito frequentei. Era chamado pela molecada de "cineminha do padre". O duro era era ter que esperar a troca dos rolos de filme, já que havia apenas uma máquina de projeção. 
Acredito que a criação da Congregação Mariana em Ourinhos tenha sido obra do padre Vitor Moreno, que esteve à frente da paróquia  de 1931 a 1935.
Esta foto, com certeza,  é o registro de sua criação, na qual vemos os congregados em torno do padre Vitor ao centro, .  rodeando a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Entre os presentes somente identifico José  Mistugui Kanda, o quinto na primeira fileira de baixo para cima.
No final dos anos 1930 e início dos anos 1940, os congregados marianos de Ourinhos mantiveram um grupo teatral tornando-se assim um dos  pioneiros da atividade teatral na cidade.  
Transcrevo abaixo a crítica de uma apresentação do grupo:
"A VOZ DO POVO", 10-9-1938
Como  decorreu o Festival de Arte dos Congregados Marianos.
Da ribalta do Cine Theatro Casino local, presenciamos na noite de 29 ultimo, o debute do novel Gremio Dramatico Con­gregação Mariana, em homena­gem a Sua Excia., Rvma. D. Frei Luiz Maria de Sant'Anna, illustre bispo diocesano, que se fez representar pelo conego Miguel dos Reis e Mello, vigário da Parochia.
Dado o caracter beneficiente do festival, cuja renda foi destinada aos cofres pró construcção da nova Matriz, o theatro esteve litteralmente tomado por uma assistência, que infelizmente não foi de toda selecta, pois não fal­taram os «meninos-engraçadinhos», que nas phases principaes da interpretação do drama, quan­do necessário se fazia o silencio, começaram com suas «piadas» ridiculas e deselegantes.
A interpretação da peça Erro  de Pae, de um enredo subtilissimo, teve um desempenho quasi impecável por parte dos ama­dores locaes, fugindo apenas a essa regra o sr. Alberto Ribeiro, o principal personagem, que como já deve ser do conhecimento dos nossos fans é veterano no «metier», tendo integrado o elenco artístico de grandes companhias Theatraes do Rio, São Paulo e Santos.
Dos estreantes, é merecedor de destaque o trabalho da senhora Carolina Mella que emprestou ao seu papel um cunho todo na­tural, que revelou perfeitamente a sua sensibilidade artistica.
Secundou-a o jovem Sebastião Neves, apezar de occupar na peça, um papel secundário — o de criado.
A José Buenos Lopes, o galã, faltou apenas um pouco mais de jogo de scena e entonação de vóz no final do 2.o acto, dei­xando transparecer muita humil­dade quando foi expulso da casa do «seu patrão»...
Quanto a Manoel Camargo Diniz, no papel de cynico, peccou no final do 3.o acto, quando necessário se fazia muita vivaci­dade e jogo em scena, perdendo assim o caracter empolgante que deveria emprestar ao desfecho do drama.
Os srs. Affonso Lopes e José Mitsugui Kanda, funccionando como ponto e contra regra, são dignos de encomios.
Scenarios adequadros, caracte­rização e machilagem perfeitas.
Na segunda parte assistimos a um acto variado, que maugrado foi bem «avariado», pois a platéa teve que engulir diver­sos «abacaxis», taes como a exi­bição péssima de um Conjunto Regional; o «sktch» sem graça, do tal Parahybano; uns bailados por meninas mal ensaiadas; alem de uns inapreciaveis «solos» de violão, apresentados pelò sr. prof. Nicolau Julião Cardoso, que mereceu da platéa o cognome de «prof. do toquinho», pois para executar os seus numeros escolhidos, obrigava o cabaretier a carregar o «toquinho de madeira» delicadamente en­volto em papel de seda e uma fitinha...
Nós que conhecemos perfei­tamente os solistas de violão da broadeasting nacional, ficamos surpresos, pois aquelles na to­talidade não fazem uso do titulo de prof. e menos ainda exi­gem programmas especiaes e com clichês, quando convidados a participarem de festivaes beneficientes...
Não é necessário apontar aqui outras falhas do sulista em apreço, bastando citar que «Abismo de Rosa» e «Tico-Tico no fubá», são números do Arco da Velha e muito mal acompanhou o flautista e o sr. Alberto Ribei­ro em números de cantos.
Alguns números do acto va­riado agradaram sobremaneira, principalmente aquelle apresen­tado pela senh. Maria Ercilia, que infelismente teve a acampanIa um «boêmio» que «arranhava» um violão de 8$000!
Zampieri"

Carolina Mella  é a dona Cali.

Fontes: Wikipedia e portal jesuítico.
Foto de autoria desconhecida.

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