24.12.09

NATAL NA SANBRA

Aos frequentadores deste blog desejo Boas Festas. Até 2010.
José Carlos Neves Lopes
A instalação de uma fábrica de óleo bruto em Ourinhos - a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro - Sanbra - remonta aos anos 1940. A origem dessa empresa está ligada à Bunge, empresa belga instalada no nordeste brasileiro e à S/A Moinho Santista. Com o caroço que sobrava do beneficiamento de algodão a empresa passou a produzir o óleo de algodão, o que modernizaria a preparação de alimentos com a substituição da banha de porco, muito utilizada na cozinha brasileira. O próximo passo foi a introdução do óleo de amendoim.

Na segunda metade dos anos 1940, teve início a instalação de uma grande fábrica em Ourinhos. Para gerenciá-la veio para a cidade José Fernandes de Souza, que ficou à frente da unidade local por mais de 30 anos. O complexo fabril era constituído de escritório, fábrica, silos e , mais tarde, do solvente, mais uma etapa da extração do óleo bruto. Sua localização era ao lado da via férrea, na vila Boa Esperança. Na unidade de Ourinhos, trabalhou-se principalmente com algodão e mamona. Nos anos em que funcionou na cidade, a Sanbra era a principal empregadora. Com seu tino administrativo, Souza conseguiu levar para o escritório e para a fábrica excelentes profissionais que tive a felicidade de conhecer, pois lá trabalhei por três anos, no escritório.

Anualmente, por ocasião do Natal havia um almoço oferecido aos empregados do escritório e uma festa Natalina no amplo refeitório da fábrica, onde essa foto tirada.

Nela vemos da esquerda para a direita: Cleide, a secretária, um modêlo de eficiência na sua área; atrás dela, Urbaninho Zampieri, tão cedo levado pela morte; Setuko Sekino, também secretária das melhores, da qual tornei-me muito amigo, tendo freqüentado a casa de sua família na Avenida Altino Arantes, onde seu pai tinha uma casa comercial; atrás de Setuko, sua irmã Tomiko, então aluna do curso científico, uma inteligência que partiu muito cedo desta vida; de braço dado com Setuko, Yeda, também funcionária do escritório, uma moça muito alegre que irradiava vida diariamente; ao seu lado, segurando uma bola, Rubens Bortolocci da Silva, o competente chefe da Seção Pessoal, que viria a se eleger prefeito de Ourinhos; em seguida dois empregados da mesma seção, Tupináe o srº Hélio, que era também o responsável pela CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, função da qual muito se orgulhava. Atrás de Rubinho estava uma sua filha. Eu sou o autor da foto.

Aproveito a oportunidade para cumprimentar as irmãs Farah pelo competente trabalho à frente deste jornal e desejar aos leitores e leitoras desta coluna Boas Festas e que estejamos juntos em 2010, quando “Recordando” estará completando dez anos de presença dominical neste órgão.

19.12.09

FALA ROBERTO PELLEGRINO

ANTIGOS PENSAMENTOS

Há uma coisa que me intriga: o que eu pensava, nos meus primeiros tempos de Ourinhos, a respeito de, vindo de Roma, haver atravessado o oceano para ir morar numa cidadezinha quente, "avermelhada" e sem possuir absolutamente nada daquilo com que estava acostumado? Para falar a verdade verdadeira, não lembro. Sou, porém, levado a crer que não me preocupava com esse aspectos, pois estava empolgado com a grande aventura em que havia se transformado minha vida. Sim, era uma grande aventura mergulhar em um mundo tão desconhecido quanto inusitado. Era tudo tão novo para mim -- os edifícios, as ruas, a vegetação, as pessoas, a língua, os costumes, o clima -- que o deslumbramento ante aquela miríade de novidades e o esforço requerido para me inserir naquele contexto não me deixavam tempo para pensar em mais nada.



A PIZZA

No princípio dos anos 1950, eu deixava os ourinhenses atônitos e incrédulos quando declarava detestar pizza. Diga-se de passagem que naquela época não existia na urbe rubra essa iguaria partenopeia, mas sua existência, logicamente, era do conhecimento dos íncolas da Rainha da Média Sorocabana, que a haviam apreciado alhures.
Para explicar minha aversão à pizza, terei de regressar ao tempo em que eu habitava a Caput Mundi, no dizer dos antigos romanos. Perto da minha casa existia uma pizzaria que minha família costumava frequentar. Meu pai, com o espírito democrático que o caracterizava, oriundo da cultura machista siciliana do início do século XX, só pedia pizza à romana, com alice, que ele adorava. Dessarte, na minhan ingenuidade, eu pensava que pizza fosse apenas daquele jeito (odeio até hoje pizza à romana, porém gosto por demais das outras, especialmente a Margherita). E, paradoxo dos paradoxos, eu só vim a conhecer outros tipos de pizza no Brasil!

Roberto Pellegrino

PS.: Em 2001, quando fui à Itália com a Maria Inês, constatei que a tal pizzaria próxima à minha antiga casa ainda existia.





TARDE
Tarde quente e modorrenta. O silêncio quebrado apenas pelo martelar de uma araponga nas imediações. Tudo parado, nenhuma brisa mexe as folhas das árvores, nenhum pássaros canta. Nada. Ninguém. O sol domina tudo; o único sinal de vida vem dos insetos. Eu quero sumir dali, para bem longe, para a capital, que fervilha de gente, de carros, onde se ouve barulho de motores, de buzinas, de vozes.
No final da tarde quente e modorrenta, o silêncio é quebrado por um estrondo, mais outro, mais outro, cada vez mais próximos. E a tempestade cai com violência, molhando a rua, as casas, as árvores, calando a araponga, refrescando o ar.
Eu continuo querendo sumir dali.

Pelleberto Rogrino

NOTEI
Eu notei o semblante compungido dos fieis depois de tomarem a hóstia. Notei o vagaroso caminhar de funcionários, de volta a seus escritórios, após terem almoçado em restaurantes. Notei motoboys arriscarem a vida para ganhar um segundo ou menos, Notei pessoas só falarem de si mesmas, de seus problemas, sem perceber que não são ouvidas. Notei pessoas de mal com o mundo e cujos reclamos são o leitmotiv de suas vidas. Notei gente que adora dar conselhos, perdendo muitas oportunidades de ficar de boca fechada. Notei homens e mulheres adoráveis que iluminam os ambientes com sua presença. Notei mulheres com trajes e chapeus estranhos em cerimônias de casamento. Notei maridos mandarem nas esposas, e vice-versa, como se casamento fosse um exercício de dominação, e não de satisfatória convivência. Notei olhares de amor incondicional de mães e pais dirigidos aos filhos. Notei que já pensei, falei e fiz muitas tolices.

Pelleberto Rogrino

OURINHOS - O PASSADO DESAPARECENDO

Na minha última ida minha a Ourinhos tive a infelicidade de constatar mais duas ações contra o patrimônio histórico-cultural da cidade:
1 - este prédio situado na esquina da Paraná com Cardoso Ribeiro é de 1930. No seu frontespício estava gravada a data . Conheci de perto essa casa nos anos 1950/1960, pois ali morava uma família japonesa de quem fui amigo. Eles vendiam uma coxinha de galinha deliciosa. Às vezes eu ficava ajudando no bar que mantinham ali somente para ser gratificado com algumas elas. Nos últimos anos, uma família portuguesa ali manteve um bar onde serviam um delicioso bolinho de bacalhau. Pois bem, venderam o bar recentemente e o novo proprietário "modernizou a fachada apagando aquela data e removendo os ornamentos que havia na fachada.
Numa cidade em que não preocupação com o passado arquitetônico, fatos como esse vêm se repetindo constantemente.





2 - O segundo aconteceu com o prédio abaixo. Trata-se de dois sobrados germinados existentes na rua Altino Arantes quase esquina com a Antonio Carlos Mori. Era uma das construções mais belas dos anos 1940, obra do construtor Ezelino Zório, que era sobrinho de Henrique Tocalino. Zório com suas construções residenciais trouxe um novo visual, tornando-as mais leves com a utilização de arcos nas varandas e detalhes decorativos sobre as janelas. Ele construiu as últimas casas que a São Paulo-Paraná financiou para os seus empregados. Uma das últimas foi a de meu pai.
Observem o que uma reforma recente fez com esse belo exemplo arquitetônico, no sobrado que foi construído para a família do drº Alfredo de Almeida Bessa.

13.12.09

DRº WALLACE MORTON



Nada há em Ourinhos que registre a memória desse engenheiro inglês que viveu em Ourinhos por cerca de 15 anos, a quase totalidade deles como superintendente da Companha Ferroviária São Paulo-Paraná. Imerecidamente, porque pela sua posição e pelo fato de ter sido o maior empregador da cidade, nesse período, deveria ter pelo menos uma rua com seu nome. Isso sem falarmos no fato de ter sido um bom patrão, bastante popular entre todos os que trabalharam nessa ferrovia, além de ter se integrado ao cotidiano dessa pequena cidade do interior paulista, participando do Rotary Clube local, da direção de clubes de futebol e da comissão responsável pela fundação da Santa Casa de Misericóridia. Uma passada d'olhos nas edições de "A Voz do Povo" desse período dá um amostra de sua convivência franca com o cotidiano de Ourinhos. Meu pai e seus primos Benedito Monteiro e Carlos Eduardo Devienne, que trabalharam sob seu comando, o admiravam muito. No livro "Ourinhos - memórias de uma cidade paulista", o jornalista Jefferson Del Rios narra alguns fatos interessantes que mostram o quanto era um homem simpático. Fato comprovado pelo sorriso franco estampado na foto aqui publicada, feita após uma partida de tênis, esporte que muito apreciava e difundiu.
Sua esposa Marjorie faleceu em São Paulo, e lá foi enterrada (início dos anos 1940).
Após a encampação da ferrovia, em 1944, retornou à Inglaterra, onde faleceu em 1986. Num relato que fez , pouco tempo antes de seu falecimento, sobre sua experiência em Ourinhos (publicado em parte no livro citado acima), ele conclui:

"Com orgulho, posso dizer que nos anos de 1932 até 1944, em que eu era superintendente da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná, se a operação da estrada foi um grande sucesso, foi devido à leal cooperação e dedicação ao trabalho que recebi de todos os empregados da estrada, e a todos devo o meu sincero muito obrigado".

7.12.09

FALA ROBERTO PELLEGRINO

USOS E COSTUMES
Os que citarei são mais quatro dos vários usos e costumes para mim estranhos com que deparei, naquele longínquo 1951, ao “mergulhar” na sociedade ourinhense. Faço questão de frisar que o termo “estranhos” não possui conotação negativa, significando apenas que eu nem sequer imaginava sua possível existência, já que na minha terra natal esses três costumes eram diferentes (atentem ao fato de que eu disse “diferentes”, e não “melhores”).
1. O tratamento de “senhor” e “senhora” dado aos pais.
2. O hábito mais ou menos generalizado de adultos não fumarem na frente dos pais, por considerá-lo um ato desrespeitoso.
3. A pessoa declarar que “perdeu o voto” por haver votado, em uma eleição, em um candidato que não se elegeu.
4. O hábito também mais ou menos generalizado de não tomar água gelada, alegando que fazia mal.

Pelleberto Rogrino

MODA
Ano de 1951. Aos 14 anos, eu me vestia à italiana, com roupas trazidas de Roma. Minhas calças eram curtas, bem curtas. Meus coetâneos ourinhenses ou trajavam calças compridas ou curtas, mas estas bem mais longas que as minhas. E por isso eu tinha de aguentar as gozações da molecada... Meu irmão, Franco, com idade entre 18 e 19 anos, vestia calças compridas sem barra, a última moda na Itália. O que também causava estranheza nos ourinhenses, que achavam esquisitas inclusive nossas camisas esporte sem bolsos.
Hoje em dia a moda é universal, globalizada: todos se vestem da mesma maneira, não importa a latitude nem a longitude, mas naquela época as coisas eram diferentes. As novas modas demoravam anos para chegar ao Brasil, e mais ainda para alcançar Ourinhos. Portanto, em termos de roupas, nós, os Pellegrino, éramos estranhos no ninho...
Ah, sim, os sapatos. Meu pai e meu irmão tinham verdadeira obsessão por sapatos bem engraxados (todos os meus tios homens, como legítimos sicilianos, compartilhavam essa mania), e certamente a Ourinhos daqueles anos, com sua terra vermelha onipresente, representava um desafio e tanto.



O TREM
Durante a viagem de trem que de São Paulo nos levou a Ourinhos, em 1951, fiz duas importantes descobertas.
1ª Que no Brasil havia mato pra burro, o que não significava que existiam loucos por manteiga por todo o percurso do trem (em italiano matto = doido; burro = manteiga). O significado da palavra “mato” nos foi explicado por um simpático rapaz que nos ministrou a primeira aula de português. Quanto a “burro”, eu já sabia que não era manteiga, e sim asino, pois se tratava de uma das pouquíssimas palavras da língua portuguesa de que minha mãe se lembrava (já contei que d. Maria era nascida em Jacutinga, MG, e que se mudou para Roma com os pais quando tinha 5 anos).
2ª Que, sim, existiam locomotivas movidas a lenha (na Itália eram elétricas), que espalhavam no ar e nos passageiros cheiro de fuligem, a própria fuligem e faíscas.
O “moderno” trem saiu da Estação Sorocabana não lembro se às 7 ou às 8 da manhã e chegou a Ourinhos às 10 da noite. Uma viagem e tanto!

Roberto Pellegrino


OS URUBUS E AS ANDORINHAS


Qualquer lugar é minha pátria porque de qualquer lugar posso ver o céu.
--Sêneca

Nos meus primeiros dias em Ourinhos, ficava olhando para o céu e admirando o voo dos urubus, que eu não conhecia. Urubu, nome feio para uma ave feia, que, porém, voa magnificamente. E o céu ourinhense era coalhado deles. De perto, com seu andar desengonçado, o urubu chega a ser asqueroso, mas lá em cima, volteando no ar, torna-se majestoso, e sua feiúra, beleza.
Anos mais tarde, os urubus, até então únicos protagonistas, tiveram seu reinado abalado pela concorrência de outras aves: as andorinhas. Embora mais graciosas que os urubus, as andorinhas só podiam competr com as performances aéreas daqueles exibindo-se em bandos. Assim, o céu de Ourinhos passou a apresentar dois extraordinários espetáculos: os magníficos voos individuais dos urubus e as estonteantes evoluções coletivas das andorinhas.

Roberto Pellegrino

AS BARATAS
Domani voglio ritornare a Roma! Amanhã quero voltar a Roma! Foi isso mesmo, em altos brados, que d. Maria Pulcinelli, minha mãe, falou naquele início de noite de outubro de 1951. Sei grito ecoou pela rua dos Expedicionários, próximo à esquina com a Nove de Julho, em Ourinhos. Um grito lancinante, cheio de pavor, no instante em que meu pai acendeu a luz da sala da casa que havíamos acabado de alugar. Lembro-me da cena como se fosse hoje: baratas enormes, parrudas, às dezenas, talvez às centenas, cobriam as paredes, e muitas encetaram uma revoada digna de filme de terror! Nada a ver com os mirrados e “subdesenvolvidos” bacarozzi da Cidade Eterna que, comparados aos seus congêneres tropicias, perdiam de goleada. Minha mãe não regressou a Roma no dia seguinte, nem nunca mais...

Roberto Pellegrino

6.12.09

JOÃO NEVES - UM ARMAZÉM EM TRÊS TEMPOS


Meu avô, José das Neves Júnior, quando transferiu sua residência para Ourinhos, em 1930(morava na Fazenda da Figueira, de sua propriedade no município de São Pedro do Turvo), montou um armazém de secos e molhados denominado “Casa Ourinhense” que pretendia entregar deixar aos cuidados dos filhos homens.
Matriculou os dois mais velhos, João e José, no curso comercial do Instituto Rui Barbosa do prof. Constantino Molina, na Avenida Altino Arantes, e colocou-os à frente do armazém.
Com a ida do filho José para o Exército (1933), o ponto comercial foi assumido pelo irmão João que mudou a razão social para “Armazém do Povo”; à frente desse estabelecimento ele permaneceu até 1943 quando se mudou para Avaré, cidade natal da esposa Henriqueta, a família aumentada com o nascimento do filho Jefferson.
O casal retornou para Ourinhos em 1946, e o armazém reaberto, agora com a denominação “Casa dos Lavradores”. Esse é estabelecimento de que me lembro, pois nasci no ano seguinte, 1947.
Eu era freguês das famosas velas doces que comprávamos com centavos de cruzeiro e que eram acondicionadas nos famosos vidros de balas.
Meu tio manteve esse estabelecimento até o ano de 1959.

A foto é da segunda fase do armazém, nela se vendo o casal João e Henriqueta

2.12.09

FALA ROBERTO PELLEGRINO

Foto: encontro de Ourinhenses em São Paulo

Roberto Pellegrino, filho do Rodolfo, está relatando fatos do seu passado, em e-mails que encaminha para os amigos. Pedi-lhe autorização para inserí-los em Memórias.


NATAL
Muito estranho o Natal de 1951, meu primeiro no Trópico do Capricórnio: aquele calor ourinhense não tinha nada a ver. Lembrei-me da última Missa do Galo a que havia assistido em Roma, na igreja de Santa Agnese, na Via Nomentana, perto da nossa casa. Isso em 1950. Fazia um frio danado. Não que eu sentisse falta do frio, pois o calor, mesmo excessivo, é mais agradável e fácil de suportar. Mas que o Natal tropical não combinava com minhas raízes e com meus usos e costumes era fora de dúvida.
Hoje, no entanto, para mim, Natal sem calor é como amor sem beijo ou macarrão sem queijo. Totalmente sem graça.


CHEGADA AO BRASIL
Uma das coisas estranhas que achei ao chegar ao Brasil – e acho até hoje, embora eu já viva aqui há 58 anos – foi o jeito de os brasileiros contarem nos dedos. Da mesma maneira que alguns outros usos e costumes, como, por exemplo, a predileção pelo arroz, o modo para mim complicado de contra nos dedos foi trazido da China pelos marinheiros portugueses.
Outra estranheza constituiu o primeiro cafezinho tomado em território brasileiro, mais precisamente no Rio de Janeiro, porto em que nosso navio atracou antes de seguir para Santos, onde a família Pellegrino desembarcou, e depois para Buenos Aires. Na então capital do maior produtor mundial de café, eu, meu irmão, minha mãe, meu pai e mais outra família romana, também de quatro membros, fomos, cheios de expectativa, degustar um cafezinho em um bar. Surpresa das surpresas, decepção das decepções: nos serviram café de coador! Em 1951, em certos aspectos, o Brasil era realmente o fim da picada...
O que dizer, então, da mesmice na mesa dos ourinhenses daquela época? Todos os dias comiam-se as mesmas coisas, exceto às quintas e aos domingos, quando era servido macarrão. Quinta e domingo: macarrão e cinema. Ah, sim, depois do cinema, footing na praça Melo Peixoto.
PALADAR
Rio de janeiro é considerata la città più bella del mondo. Isso declarou a professora de italiano e latim, Maria Farina, em 1951, a nós, alunos da 3ª série ginasial do Ginnasio Massimo d’ Azeglio, em Roma. Contei à minha mãe, que ficou toda orgulhosa, pois ela havia nascido no Brasil, em Jacutinga, MG. No mesmo ano, em setembro, quando nosso navio atracou no porto do Rio, deslumbrei-me com a beleza da então capital.
Foi em Santos que fiz meu primeiro contato com um produto tipicamente brasileiro: a garapa ou caldo de cana. Gostei? Não gostei? Não soube dizer. Lembro-me que achei seu gosto muito estranho, exótico. A mesma coisa ocorreu quando experimentei uma manga. Também achei seu sabor esquisito, meio “agressivo”. Meu paladar europeu precisava se acostumar para apreciar devidamente tanto a garapa quanto a manga. E isso aconteceu bem rápido. Em compensação, com a feijoada foi “amor à primeira vista”. Adorei logo de cara. Quanto ao quibe, então, que maravilha! Embora não seja uma iguaria brasileira, conheci o quibe em Ourinhos, vendido na rua pelo seu Abrão (“Quende!”) com sua cestinha. Todos os dias de manhã, ao voltar das compras, minha mãe me trazia alguns, com os quais eu me deliciava. Numa ocasião, eu e o Clóvis Chiaradia comemos todos, isso mesmo, todos, os quibes da cesta do seu Abrão!
No caso do sorvete... bem, aí o bicho pegou. Naqueles primeiros anos da década de 1951, os sorvetes em Ourinhos eram de lascar! Eu, acostumado com os de Roma, tinha de me consoloar com aqueles lamentáveis sorvetes do Bar Cinelândia. Contudo, gostava dos “palitos” de coco queimado.

FESTA DE FORMATURA
Numa manhã de dezembro de 1951 (não lembro se sábado ou domingo), deparei com algo para mim surpreendente. Eu morava na rua dos Expedicionários, numa casa ao lado do Grupão. Fui caminhando e, na rua Nove de Julho, dei com o Cine Ourinhos aberto e cheio de gente. Curioso, entrei. Pela primeira vez na vida presenciei uma cerimônia de formatura, a qual (a cerimônia) nem sabia que existia. Achei muita pompa e circunstância, para falar a verdade, para a entrega de um mero certificado de conclusão de curso primário. Logo me dei conta de que aí havia a influência da cultura norte-americana. Aviso aos espíritos sensíveis e aos provocadores: eu era um garoto de 14 anos proveniente de uma sociedade que, durante o fascismo, havia tomado um porre de pompa e circunstância, e que, depois da guerra, tornara-se asceta nesse âmbito. Por isso minha estranheza.